quinta-feira, 18 de junho de 2015

Vida, Existência e Essência: uma leitura existencial das origens



            Neste ensaio, pretendo discutir três categorias conceituais - Vida, Existência e Essência -  no intuito de esclarecer e fundamentar a sistematização filosófica que venho desenvolvendo neste Blog1. Esses conceitos são de extrema importância para compreender o processo histórico-existencial do ser humano.
            Compreendo Vida como "substrato biológico que anima a matéria, lhe conferindo um sistema orgânico o qual nasce, cresce, desenvolve, reproduz e morre. Essa matéria animada possui leis fixas, cuja aplicabilidade se encontra também na matéria inanimada inorgânica. Essa semelhança é explicada na ideia de que a segunda deu origem a primeira. Na verdade, a matéria animada, a vida, é a parte acidental de uma causa maior chamada natureza bruta. Essa última produziu a primeira, num processo de transformação que podemos entender como evolução. A vida, como nos demonstrou Darwin, obedece ao princípio da evolução biológica que ocorre em função da seleção natural. A evolução biológica é o resultado de uma interação entre matéria animada e inanimada. Como parte do grande todo - a natureza bruta - a vida também se transforma, obedecendo as mesmas leis rígidas.
            Essa matéria animada, catalogada em espécies e em organismos, não é independente do seu meio ambiente, possuindo uma relação simbiótica com ele. O organismo individual é o representante da espécie, a especificidade dessa matéria animada. Possui uma temporalidade mais ou menos determinada, o que se entende como tempo de vida. Esse  é sempre um elo de transição e nunca um fim propriamente dito. O fim é o princípio geral: a perpetuação.  Pois o que interessa para a espécie e a vida em-si é a perpetuação dessa matéria animada - assim como o filósofo Schopenhauer bem definiu em sua teoria da vontade. Nesse sentido, pode-se afirmar que a vontade contida em cada indivíduo orgânico é um fragmento da Vontade Biológica que governa irracionalmente todos os seres vivos. E o principal objetivo dessa vontade é a perpetuação de si mesma. É nesse sentido que o organismo individual, portador do plasma biológico, não pode ser um fim, mas um meio, pois o que é evolutivamente conservado não é o indivíduo orgânico, mas a vontade biológica que retroalimenta a si própria no interior de uma lógica maior: a Vontade Geral. Essa formula é válida para toda a matéria animada e inanimada que conhecemos empiricamente e que especulamos ora pela lógica matemática, ora pela lógica conceitual.  
            Passarei agora para uma análise mais particular: a do ser humano. Para isso permitam-me que busque referência em dois grandes teóricos da natureza humana: Arthur Schopenhauer e Sigmund Freud.  
            Schopenhauer chamou de vontade de vida a manifestação dessa vontade biológica que é encontrada em todos os seres vivos. Freud, possivelmente sob a influência desse filósofo, usou o conceito de pulsão de vida para referir-se ao impulso da ordem da sexualidade, guiado pelo principio do prazer, que motiva o individuo " humano" rumo a satisfação parcial. É interessante destacar que o conceito de vontade de vida de Schopenhauer adquire uma significação genérica, referindo-se praticamente a todo reino orgânico, enquanto que o conceito de pulsão de vida em Freud refere-se particularmente ao ser humano. A pulsão de vida é a humanização da vontade geral, da qual a sexualidade é parcializada, extirpando-se do fim gerador da vontade: a perpetuação da espécie. Mas o que, realmente, marca essa transição, especificação ou transformação da vontade biológica para/em a pulsão sexual, guiada pelo princípio do prazer? O aparecimento existencial ou da consciência do homem.
            No texto "Pulsão existencial e sua meta criativa", comecei a especular esta ideia. Nele introduzi o conceito de pulsão existencial, buscando representar esse elo de transição entre vida e existência que possivelmente ocorreu no período da pré-história. A pulsão existencial foi o resultado do processo de evolução do cérebro humano e suas estruturas, envolvendo ai o desenvolvimento do pensamento, memória e da linguagem. Todo esse processo está intimamente ligado às condições ambientais e às condições sociais que não podem ser tratadas isoladamente.
            A pulsão existencial representa a transição evolutiva do instinto biológico. O homem que anteriormente inexistia enquanto ser, angustiado por essa pulsão existencial, começa a ter pequenos feixes de consciência que apreendem a noção de finitude do seu próprio ser, desembocando assim no vazio existencial. Com essa consciência, há uma defesa do organismo, próprio de uma ligação com o instinto de sobrevivência, que o impulsiona a preencher esse vazio. Esse preenchimento é realizado graças a sua capacidade de combinar imagens, reflexos perceptivos do mundo externo, armazenadas na memória, que também se desenvolve no processo evolutivo. Á essa combinação de imagens simples em imagens complexas, chamei de imaginação. E ao processo pelo qual isso foi possível de criatividade. Até então estamos falando na esfera do mundo interno, da subjetividade. Porém, a pulsão existencial, assim como o alimento que se digere no estômago de um animal, precisava ser eliminada ou expulsa, saindo do interno (subjetividade) para o externo (objetividade). O imaginário é o ambiente onde a pulsão existencial adquire sua forma, porém é na expressão que ela pode, de fato, atingir sua meta pulsional. Por essa expressão o homem-sujeito, se interconecta com o mundo material de maneira a transformá-lo em virtude de sua forma subjetiva (antropomorfismo). A partir daí temos Arte, que surge tão-somente para fechar o ciclo existencial do homem, aliviando a pulsão existencial e produzindo um sentido (essência). Em resumo, a arte surge para aliviar a necessidade existencial do homem.
            As obras de artes são uma reposta criativa do organismo humano à angustia, produzida pela pulsão existencial. Elas são resultado da relação evolutiva Vida-Existência e Essência. E em tempos pré-históricos, elas tiveram um papel essencial para a humanidade, pois preencheram as lacunas do vazio existencial, uma das primeiras reações do aparecimento existencial dos homens. O medo biológico é a primeira atividade do ser vivo ao se deparar com o mundo que, por sua vez, se revela perigoso e ameaçador. Imaginem a sensação de um homem pré-histórico que se depara com os primeiros impulsos existenciais, o intervalo que o separa dos instintos biológicos. Qual a sensação do homem ao se deparar com a ausência, o nada, o niilismo? Possivelmente. ele se aterroriza, se amedronta, em proporção semelhante ao fato de encontrar um animal, predador de sua espécie. Trata-se de uma sensação que o impulsiona a preencher esse vazio existencial, produzindo um sentido (essência) para sua emergente existência. A vontade de vida só se transforma em pulsão de vida graças a pulsão existencial. Nesse sentido, tenho uma forte e estrutural discordância com Freud: a civilização não se inicia com a repressão do princípio do prazer, mas com a elaboração criativa de sua pulsão existencial. O primeiro grande conflito do homo sapiens foi existencial, somente depois ele se torna sexual - no sentido atribuído por Freud. Pois se trata da angustia existencial, a conversão evolutiva do medo, a pulsão de autoconservação freudiana. Somente depois de superar a angustia, se é possível falar em prazer, em sexualidade. Bem, mas creio que essa questão ficará para outra discussão. Por hora me contento em apresentar as relações entre vida, existência e essência.
            Para terminar, gostaria de melhor conceituar as três categorias conceituais apresentadas. Oriunda da matéria inanimada,  a vida segue a lógica da perpetuação de si mesma, tendo os organismos como hospedeiros. É inconsciente e irracional quando pensada via consciência e razão humana. Nos animais e demais seres vivos, ela se configura em uma estrutura-função mecânica cuja determinação é rígida, variando apenas com as mudanças ambientais e a passagem do tempo (milhões de anos). Vontade de vida, conceituado por Schopenhauer, é o melhor nome para esse processo.
            Já a existência - como tenho pensado e demonstrado -  é uma categoria que só se aplica plenamente ao ser humano. Os animais e demais seres vivos vivem, mas não existem por si próprios, isto é, dependem da percepção consciente do homem para existirem. Nesse sentido, eles vivem para a natureza e existem para a consciência humana. Já a existência pode ser definida como um estado demasiado humano, cuja duração encontra-se intimamente ligada a vida (tempo de vida). Ela é uma constante, presentificada pela consciência do sujeito que vive no-mundo-no-tempo-com-os-outros-para-a-morte. Enquanto que a vida é um conceito mais genérico se referindo à matéria animada como um todo, existência é um conceito mais específico, que se refere apenas ao homem, a sua consciência. Ela representa o espaço entre o nascimento e a morte que se configura na subjetividade de um sujeito particular. Trata-se de um estado sempre presente que estabelece, via consciência, um diálogo/relação com o passado (memória) e com o futuro (desejo). É a partir da percepção nocional da existência como um estado finito que o homem entra em contato com o vazio, o nada, sendo impulsionado a recorrer a sua imaginação e com essa, posteriormente, a exercer a sua criatividade para resolução dessa problemática.
            A essência ou sentido existencial representa o resultado ou arte final desse processo. Trata-se de uma produção antropomórfica que dá conteúdo ao vazio, significando-o. Longe de ser uma descrição ou reprodução objetiva da natureza bruta, a essência representa a subjetivação humana da última que recria a realidade a partir de uma demanda existencial. As necessidades existenciais constituem as condições a priori da essência: "A existência precede a essência" Jean-Paul Sartre." Mas como apresentamos nesse ensaio a vida precede a existência e constitui, na ordem evolutiva, o seu estado primitivo.     
            Ao processo de criação da essência, motivado pela pulsão existencial, dei  o nome  de Áperion ou princípio artístico, processo que marca a entrada da subjetividade e criatividade humana na construção do mundo percebido. Como desenvolvi nos ensaios passados, tendo sua origem pré-histórica, esse processo foi integralmente intuitivo havendo uma miscigenação entre mundo interno e mundo externo, ou seja, imaginação e fato. A consciência intuitiva dos homens primitivos não foi capaz de apreender a participação subjetiva dos homens que estavam "existencializando" esse processo, centralizado-se no fato externo (criador). O fato externo é alterado pela imaginação que, seguindo a lógica da pulsão existencial, cria uma essência subjetiva que é entendida pelo humano como criadora.  Tal processo não pôde ser desvelado e conscientizado pelos humanos que estavam protagonizando o mesmo, gerando assim a contradição criatura-criador. Essa se manteve cristalizada na história cultural dos homens e, não questionada, persiste nos grandes mitos, superstições, religiões e ideologias da contemporaneidade.
            Bem, por hoje é isso! Espero que esse ensaio tenha iluminado um pouco essas categorias tão complexas. No mais, esse conceitos precisam ser melhor teorizados e  melhor ajustados ao corpo da teoria, mas nos ajudam a compreender muitas questões e problematizar outras sobre o nosso processo histórico-existencial.



Notas:


Referências bibliográficas:


DARWIN, C.(2005).. A origem das espécies. Lelo & Irmão.

FREUD, S. (2004). Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico. Escritos sobre a psicologia do inconsciente, 1. Ed. Imago
 
FREUD, S. (1915/2004). Pulsões e destinos da pulsão. Obras Psicológicas de Sigmund Freud, 133-173. Ed. Imago.

FREUD, S. Além do princípio do prazer. Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Ed. Imago.

SHOPENHAUER, Arthur. Metafisica do belo. Ed. Unesco.

SHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Ed. Contraponto.


            

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Somente seu olhar (por Alvinan Magno)



Olho nos seus olhos, vejo um belo futuro
onde quero estar
Projeto-me alegremente nesse gesto puro
que é o seu olhar

E minha visão se encanta e na magia
re-começo a acreditar
Se a felicidade existe, recorro poesia
pra te enchergar

Eu vejo sempre esperança nesse brilho eterno
que é o seu olhar
Me prometendo o paraíso, o ultero materno
quero retornar

E re-viver momentos lindos, e na inocência
poder acreditar
E se a felicidade existe, nesta experiência
eu vou mergulhar 
  
Ah, se palavras pudessem dizer
o que eu sinto por você
sem distorcer esse momento
Ah, se a lingua pudesse transmitir
o que você me faz sentir
a beleza desse sentimento

Ah: somente  o olhar
pode expressar: somente seu olhar (2x)


 Obs: Música dedicada ao amor da minha vida, Carla Berti Bonesso.












segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Way of Life (por Alvinan Magno)

Por detrás desse discurso
Uma pseudo-liberdade
Faz do mundo um concurso
E de sua vontade, autoridade!

Sobrevivi de uma mentira
Pra se manter no poder
Sobre o contrário lança a ira
Maior terror não se pode ter!

E vive uma ideologia como se fosse verdade
E lança sua paranóia doentia sobre a humanidade
Controle e condicionamento são suas virtudes
Invasão, corrupção, destruição: suas atitudes

Terrorismo psicológico
Mal estar social
Comportamento xenofóbico
invasão, invasão cultural

Globalização antidialógica!
Liberdade de expressão?
Democracia autocrática!?
Que contradição!!

E nós seguimos seu "Way of  Life" como meros espectadores
E eles explodem nosso país e aplaudimos seus "atores"
E nós seguimos seu "Way of  Life" como meros espectadores
E eles explodem nosso país e aplaudimos... (bate palma)
Seus "autores"


Letra e melodia por Alvinan Magno

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Para uma Psicologia do Diálogo (Por Alvinan Magno)


            Este ensaio sintetiza os pontos essenciais de um encontro ocorrido no dia 24 de outubro de 2014 na faculdade Anhanguera de Anápolis. O tema era "Para uma psicologia do diálogo". Tema que, ao longo dos últimos anos, tem ocupado os meus estudos, reflexões, escritos, práticas psicoterápicas e inter-relacionais. Antes de iniciar a síntese sobre o encontro mencionado, gostaria de agradecer a algumas pessoas, e retratar um pouco da minha experiência.
            Gostaria de agradecer a Péricles Ferreira, filósofo, tatuador e escritor autodidata, que através de seus encontros filosóficos me apresentou uma nova maneira de experienciar as relações humanas. Nesses encontros, eu pude compreender que filosofia não é somente uma atividade individual, embora se inicie no pensamento do sujeito diante das dúvidas e questões existenciais. Pude compreender que a realização filosófica se efetiva na dialogicidade, no compartilhamento de ideias e sentimentos expressos, que se dão durante o encontro. Por meio destes encontros, eu "encontrava" uma nova maneira de me encontrar com os homens, descobrindo a importância do "nós" e da humanização dele oriunda. Assim, surgiu o meu interesse pelo estudo das relações humanas, do encontro...
            Agradeço a professora Janaína S. Oliveira, de quem tive a oportunidade de ser seu aluno. Com ela, pude aprender muito sobre relações humanas, dinâmicas de grupos, psicologia sócio-histórica entre outras. Suas aulas eram sempre um convite ao diálogo e a experiência grupal humanizadora, da qual era impossível não se emocionar. A professora Janaína, devo o meu profundo interesse pelas relações interpessoais.
            Gostaria de agradecer também a Luiz Eduardo Rosa Silva pela participação nos grupos de estudos e pela possibilidade de mediar alguns diálogos após a mostra de filmes no cine clube Xícara da Silva, atividade que faço com muito prazer, pois adoro a sétima arte, tanto do ponto de vista contemplativo, como criativo. Pude apreender muito com ele, e dialogar importantes questões sobre arte, filosofia, ciência política...  Não poderia de deixar de agradecer ao meu amigo e parceiro de composição, o músico César Franklin. Com ele, tive a oportunidade de realizar vários projetos artísticos, e descobrir que dialogar é um ato de amizade.
            Daí por diante tive a oportunidade de participar como mediador de vários encontros, psicoterápicos, de estudos, ou ambos. Afinal, quando o encontro atinge um elevado nível de reciprocidade, no qual os membros se sentem aceitos mutuamente, tal como constatou Rogers, é inevitável não haver um processo psicoterapêutico. O senhor Raimundo, um integrante de um destes grupos de seus 55 anos, sempre me falava após o grupo algo neste sentido: "Alvinan, eu sempre saio dos grupos renovado, é um experiência muito boa, eu me sinto livre pra falar o que penso, pra dizer o que sinto". E isto, estudando um texto "Mal estar na civilização" de Freud. Mas, pensem bem, caros leitores, qual a utilidade de um estudo que não ultrapassa o campo da teoria, se tornando vivencial? Como falar do mal estar na civilização, se não consigo me localizar neste tema, se ele me é indiferente?
            Antes do referido encontro, eu havia me lançado numa intensa e angustiante reflexão: Seria a psicologia, ciência que ao longo da história serviu as instituições, produzindo discursos para sua legitimação, capaz de libertar o homem do seu legado ideológico? Seria esta ciência que sempre se acoplou as demanda do capitalismo, as demandas de um individuo isolado, capaz de inter-conectar "humanamente" os homens? Existe, realmente a possibilidade, da psicologia ser uma precursora "legítima" do desenvolvimento humano dos homens? Estas e demais questões me fizeram formular alguns caminhos para trilhar, caminhos que não poderia formular só sozinho, pois, afinal, não iria trilhá-los sozinho.
            Compreendendo esta máxima, cheguei a conclusão que deveria falar sobre diálogo no e pelo diálogo, ou seja, o tema "diálogo" só poderia ser autenticamente compreendido se vivenciado em uma relação onde a dialogicidade estivesse presente. Não poderia fazer um discurso sobre diálogo, seria uma contradição evidente, já que considero o discurso como o principal oponente do diálogo. Foucault para falar de discurso, em sua "A ordem do discurso", recorreu ao discurso, enquanto meio de transmissão da sua temática, justificando-o dentro de teoria. Eu, seguindo essa lógica, mas questionando a instrumentalização do discurso, propus para os envolvidos do encontro uma experiência dialógica, que diferente de uma palestra discursiva, tem o conteúdo como um mero elemento facilitador, se centrando na relação. O que importa numa relação dialógica é a participação ativa e compartilhada dos envolvidos no encontro que, muitas das vezes, pode definir e intervir na temática, transformando radicalmente os pontos de vista. Nesse sentido, o "palestrante" se torna um mediador ou facilitador cuja tarefa é organizar consensualmente a atividade dialógica, direcionando esta através dos seus temas geradores.
            Tendo a relação dialógica como referência, eu trouxe as seguintes questões para dialogar com grupo: Mas, afinal, o que é diálogo? Qual a diferença entre discurso e diálogo? Qual a relação entre diálogo e psicologia? Estas questões foram apresentadas uma após a outra, depois de um compartilhamento entre ambas. Como era de se esperar de uma relação dialógica, todos os envolvidos deram a sua opinião, contribuindo pra o desvelar  das questões. Assim, foi possível a nós formular nossas próprias respostas, algumas muito próximas do pensamento do filósofo do diálogo Martin Buber e do pedagogo e teórico brasileiro Paulo Freire, que eu havia usado como referências. As respostas eram próximas a estes autores, pois iam numa mesma linha de pensamento, mas nunca iguais, pois o que dialogávamos naquele encontro era uma presentificação do nosso momento histórico-social que se realizava graças a interação criativa das nossas subjetividades, que produzia uma nova significação. Em resumo, estávamos ali produzindo nossas próprias concepções sobre diálogo e sua relação com a psicologia.
           Nesse sentido, caros leitores, chegamos a algumas proposições consensuais, respondendo a primeira questão. Tentarei transmiti-las a vocês, respeitando  e traduzindo a vivência do encontro.

  • ·         Diálogo é uma relação entre dois seres, que se faz entre um Eu e um Tu.
  • ·         Trata-se de uma relação empática, cuja a realização se dá por meio de trocas recíprocas.
  • ·         Representa a possibilidade de uma real comunicação por meio da aceitação do outro, e com esta a aceitação de si mesmo.
  • ·         Acontece na interface de um encontro: sua possibilidade ontológica se dá pelo encontro das extremidades, sendo inter-subjetivo.
  • ·         É uma coexistência, ativa, criativa e compartilhada, onde os evolvidos, tendo o homem e o mundo circundante como referência, se beneficiam mutuamente, através de relação consensual. 
  • ·          Deve ser des-sexualizado, ou seja, desprovido de interesses sexuais, de um ponto de vista psicanalítico.
  • ·         Para haver a dialogicidade, é necessário que se fale de uma relação entre sujeito, nunca  entre "objetos". No diálogo o sujeito está para um sujeito, e não para objetos. 
  • ·         Embora se possa falar de diálogo no plano do homem com a natureza (animais, plantas) e do homem com os seres espirituais - tal como coloca Buber - é somente no encontro humano que se realiza a autêntica ação dialógica. Nela, o homem recebe e endereça seu TU.

            Por meio de uma comunicação compartilhada, encontramos uma nova significação para esta simples palavra (diálogo), que se objetivou naquele encontro por meio da nossa volição, engajada neste tema. Cada individuo, ali presente, possuía uma historicidade subjetiva que se integrou com as dos demais, numa historização coletiva compartilhada. Assim, pode-se dizer que nossas historicidades encontraram um elo dialógico e, ao menos naquele momento, puderam se realizar, mais do que uma simples aquisição intelectual, foi uma vivência empática humanizadora. Nesta atividade, nós atribuímos a nossa coexistência experiencial aos conceitos, termos e temas, que foram apenas meros instrumentos, ou como pensava Heidegger, utensílios. Utensílios usados, neste caso, para refletir e traduzir a nossa experiência dialógica...
            Se eu tivesse optado por uma prática discursiva (palestra, aula expositiva), jamais atingiria esse nível de reciprocidade, pois o que estaria sendo estimulado, na melhor das intenções, seriam conteúdos, e não uma vivência didática compartilhada.  E para que, vocês compreendam melhor esta crítica que estabeleci ao discurso ou a discursividade, creio que seja necessário passar para o próximo nível do encontro. Estabeleci um quadro apontando algumas diferenças entre dialogicidade e discursividade, e estas aumentaram após a experiência dialógica com o grupo.


Enfoques da Discursividade
Enfoques da Dialogicidade
Comunicação monológica
Comunicação dialógica
Transferência narcísica
Transferência empática
 Explora o EU-ISSO
Experiencia o EU-TU
Valorização do objeto: Fetichismo 
Valorização do ser humano: humanismo.
Relações embasadas em interesses sexuais: hedonismo.
Relações embasadas no sentimento de amor a humanidade: altruísmo.
O foco é o individuo
O foco é a relação
Pressupõe  que o poder deve ser delegado a uma figura de autoridade
Pressupõe  que o poder pode ser compartilhado pela coletividade
Tendência a alienação e a dominação, entre o emissor e receptor
Tendência  a emancipação e libertação da coletividade humana
Concepção a-histórica da realidade baseada em um presente fragmentado  e contraditório(pós-modernidade).
Concepção histórica, baseada na possibilidade de integrar a realidade, superando as contradições sociais.
Produz condições para a competição.
Produz condições para a cooperação.

            

























            
            Passarei agora para uma análise mais detalhada deste quadro comparativo. Como é possível perceber no mesmo, existe uma enorme diferença entre os enfoques da discursividade e os da dialogicidade. Uma diferença profundamente antagônica a nível de tese e antítese. Enquanto que a primeira representa o espírito das relações inter-pessoais da nossa época neoliberal, a segunda representa uma possibilidade de ser, que só pode se tornar real como crítica da primeira. Trata-se de uma postura revolucionária.
            Na discursividade, a atividade se realiza tendo como padrão uma comunicação monológica que se resume em um emissor que transfere narcisticamente suas ideias e sentimentos, tendo em mente que seu (s) receptor (es) os acate (m) de maneira a-dialógica e a-dialética. Ele, no ato do discurso, se faz uma autoridade, cujo poder lhe foi delegado por um sistema, e cuja intenção é transmitir uma mensagem prontificada, estabelecendo, assim, relações de dominação, manipulação e alienação. Os sujeitos receptores são postos como Eu-Isso, meros objetos, no qual o discursante realiza seu fetiche Oral. A discursividade ou atividade do discurso é, como pudemos vivenciar, a forma de comunicação (talvez nem poderia ser chamada de comunicação) mais abrangente e recorrente do mundo contemporâneo. Pode-se dizer que sua existência, enquanto atividade humana, representa e traduz a via expressiva das contradições humanas da contemporaneidade, conservadas pelo sistema capitalista. 
           Ao contrário, na dialogicidade, a atividade se realiza numa comunicação entre um Eu e um Tu no seio de uma relação dual engajada, cuja aceitação do outro é sua condição de existência. Nela, a transferência ocorre em um nível empático, pois os envolvidos sentem uns aos outros, não como objetos de suas próprias projeções narcísicas, mas como sujeitos humanos que necessitam uns dos outros, para se realizarem como tal. Na dialogicidade, a atividade comunicativa é nutrida pelo sentimento de amor, mas não se trata aqui de um amor libidinal, narcísico-sexual, como supõe a psicanálise. Trata-se de um amor humanista, amor a humanidade, e para não distanciarmos totalmente do conhecimento psicanalítico: trata-se de uma "sublimação". Ou seja: uma canalização e/ou superação dos impulsos narcísico-sexuais na relação inter-pessoal pela consideração existencial do outro enquanto pessoa humana.  O sentimento de amor a humanidade é a condição prévia para a empatia...
         Embora existam inúmeras diferenças e relações entre discurso e diálogo, das quais esse encontro foi capaz de apontar algumas, creio que estes, devido a sua vastidão, sejam  para um próximo encontro. Falta relatar a vocês, caros leitores, a última parte do presente encontro. Depois do compartilhamento das diferenças entre diálogo e discurso, eu trouxe a terceira questão, almejando traçar uma relação entre psicologia e diálogo: Dentro de tudo isso que foi aqui discutido, a psicologia, no decorrer de sua curta história, tem se reportado mais a discursividade ou a dialogicidade?  Ela tem buscado dialogar com os homens, ou tem se afastado deste compromisso humano?
            E a reposta por parte de todos os envolvidos foi: a discursividade... Não, a psicologia tem se afastado deste compromisso humano. Concordamos que, ao longo de sua existência, a psicologia têm se acoplado as demandas do capitalismo e do neo-liberalismo, se fechando ora numa psicologia individual patologizante que responsabiliza o sujeito por sua condição, ora numa psicologia coletiva (das massas), discursiva e alienante que busca resolver os problemas sociais pela adaptação comportamental  as contingências dominantes; Ambas as psicologias, desconsideram a história e os fatores sociais, e com isso, evidentemente, negam a dialogicidade e a possibilidade da participação democrática dos homens na construção do conhecimento psíquico. Ao longo dos anos, a psicologia tem sido usada como uma ferramenta discursiva para alienar os homens, isto é, para modelá-los de acordo com as fôrmas do neoliberalismo. Longe de libertá-los, ela tem estimulados a produção de uma discursividade prescritiva que estimula a objetificação das relações, a individualização do sujeito, fragmentando-o de si mesmo, dos outros e do mundo concreto.
            E como seria então esta tal psicologia do diálogo que estamos aqui defendendo, quais seriam suas características? Bem, seriam totalmente inversas ao da psicologia do discurso que, possivelmente, se desenvolve na"pós-modernidade". A psicologia do diálogo só pode se reconhecer como crítica da psicologia do discurso. É pela crítica que ela encontra a sua razão de existência, podendo se legitimar autenticamente enquanto prática humanista. Somente assumindo os enfoques da dialogicidade que a psicologia pode se libertar da discursividade, característica central do mundo "pós-moderno". E quais seriam as condições prévias para implementação desta tal psicologia a nível prático? Formulei antes e a após o encontro, algumas proposições que acredito serem necessárias para que essa psicologia seja possível. Estas proposições, são, antes de tudo, proposições éticas. Para que haja uma psicologia do diálogo é necessário:

     Amor e compromisso a humanidade (humanismo), acima de tudo.
     Humildade para aceitação do outro.
    Respeito as diferenças individuais e culturais.
   Capacidade para uma escuta empática e dialógica.
   Disposição para o engajamento humano em projetos coletivos.
  Coragem para se opor ao individualismo discursivo anti-dialógico, próprio do sistema capitalista neoliberal.

            Acho que, em síntese, é isso, caros leitores. Espero que tenha conseguido transmitir a síntese deste encontro que pra mim foi tão rico e importante. A partir dele, pude ampliar minhas noções e pensar, por meio da prática dialógica, numa psicologia que pode ser a esperança para os nossos tempos. Uma psicologia que adentrasse nos principais problemas do ser humano contemporâneo, que aqui coloco como problemas de natureza a-dialógica e anti-dialógica. Posso estar sendo utópico, mas eu realmente acredito que estas ideias e estes sentimentos presentes nestes textos, possam ser mais do que meras expressões. Acredito que estas ideias, estes sentimentos, são ensaios que podem se cumprir renovadamente em continuas ações. Necessitam ser aperfeiçoados a luz de uma epistemologia crítica e de uma ontologia criativa. Mas isso só poderá acontecer com a experiência dialógica, propriamente dita, que aqui descrevi um pequeno, porém, significativo fragmento.
   

REFERÊNCIAS

BUBER, Martin. Eu e Tu. 10 ed.  São Paulo: Cenaturo, 137 p. 2001.

BUBER, Martin.  Do diálogo e do dialógico. São Paulo. Perspectiva, 2009.

CATÃO, Alvinan. Psicanálise, Fenomenologia e Existencialismo – um possível diálogo na construção de uma nova abordagem. Goiânia, Kelps, 2014.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo, 20a ed Edições Loyola, 2010.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de janeiro, 54 ed., paz e terra, 2013.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 21). 1996.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Pulsão existencial e sua meta criativa (por Alvinan Magno)

Ao longo de minhas investigações filosóficas1, tenho sustentado que o “encantamento” artístico, produzido pelo princípio Ápeiron, tem perpetuado historicamente os paradigmas, as injurias, os mitos e os erros históricos, enfraquecendo a reflexão filosófica e o seu movimento dialético sobre o mundo concreto, resultando num evidente atraso no desenvolvimento humano da humanidade. Esse encantamento, oriundo de uma contradição entre criador e criatura, foi o responsável pela aceitação e pela transmissão cultural das superstições, das significações mágicas e das ideologias (ideias encantadas pelo capitalismo) ao longo da história. Levantei a hipótese de que este encantamento tenha surgido com a transição evolutiva do homem primitivo pré-histórico - que era inconsciente de sua existência e dependente dos estímulos ambientais - para o homem histórico – que já possuía uma consciência intuitiva, ou seja, era um ser existencial. Nos ensaios anteriores, criei alguns conceitos na tentativa de desenvolver posturas ético-filosóficas para a superação filosófica desta problemática.
Sou levado a colocar que a representação encantada (encantamento) surgiu da distorção senso-perceptiva dos primeiros seres humanos intuitivos, diante de fenômenos desconhecidos a aquela consciência intuitiva. Com a evolução biológica dos seres humanos, houve a conversão do medo instintivo em angustia existencial. Esta, juntamente com as inúmeras capacidades criativas daquela consciência, fizeram com que os primeiros seres humanos (Sapiens) criassem significados mágicos para tampar as lacunas do vazio existencial, este que foi efeito da percepção consciente dos mesmos sobre a sua situação mortal. Anteriormente a morte encontrava se única e exclusivamente ligada ao instinto de sobrevivência que se fazia mecânico em sintonia com os estímulos do meio ambiente. O instinto de sobrevivência, nesta ordem evolutiva, também se transforma, adquirindo uma forma existencial. Chamarei aqui de pulsão existencial, a transposição conversiva do instinto de sobrevivência para uma força existencial-criativa. Esta pulsão estava destinada para um único fim: a saciação das necessidades existenciais, por meio da produção criativa de significados para, então, emergente existência. Se a fome representa um sinal de alerta do corpo que mobiliza o organismo ao ato de comer, a angustia (pulsão existencial) representa o sinal de alerta da existência que a mobiliza ao ato de criar um sentido; sentido para tamponar o nada.
Os primeiros sentidos (significados) foram criados graças a percepção intuitiva dos primeiros homens. Estes sentidos, como já foi dito, se situavam sempre no mundo externo, não havendo espaço para a compreensão da participação subjetiva-protagonizante dos seres que estavam existencializando o processo. Os homens intuitivos não eram capazes de abstrair a realidade tal como esta, de fato, era, ou seja, de maneira lógica ou racional. Talvez o termo "distorção senso-perceptiva" seja um tanto pesado para representar este fenômeno, pois aqueles homens estavam tendo as suas primeiras experiências existenciais, constituindo, ao longo destas, suas memórias e historicidades. O fato é que, em tais condições, mesmo que sejam considerados errôneos em nossa concepção lógica contemporânea, tais sentidos foram formas de compreender e significar a existência com base nesta estrutura cognitiva ancestral. Nesse sentido, um raio que caísse do céu poderia facilmente ser interpretado como uma manifestação mágica, poderosa, que escapava aos domínios da consciência. Um imaginário criativo, angustiado pela pulsão existencial, poderia interpretar um meteorito que caiu do céu, como um Deus, ou obra do mesmo, só necessitaria de condições propicias e específicas.
A pulsão existencial ancestral ainda possuía vínculos com o instinto, no sentido de atingir a sua meta, não se preocupando com a realidade das coisas. É provável que o aparecimento existencial, juntamente com a sua finitude (mortalidade), tenha gerado no homem um de seus maiores traumas, o que, na história das culturas, nunca foi aceito. Por meio deste trauma, o homem se descobriu um ser impotente, fraco, pequeno, e como resposta a isto o organismo, já então existente, pulsionalmente motivado, buscou tamponar esta realidade cruel criando, assim os “significados criadores”.
A emergência angustiante, produzida pela pulsão existencial, fez com que os homens primitivos criassem seus primeiros sistemas totêmico-religiosos que eram sempre representados em suas pinturas rupestres, esculturas e outros itens adornados. Como se percebe, a arte, ou seja o processo artístico-criativo estava ali desde o começo, sendo o “principio” desta contradição entre criatura e criador. Chamei de princípio Ápeiron, ou princípio artístico, a lógica que possivelmente tenha produzido esta contradição. Embora este processo de produção de sentido tenha ocorrido graças a criatividade artística do homem, tal processo não foi percebido por ele, sendo cristalizado na memória cultural, perpassado a seus descendentes por meio da linguagem. Desde então, a criação, as obras de arte, cujo simbólico superou sua materialidade, adquiriram função de criadoras, perpetuando na história, e colocando os homens como espectadores de sua própria criação, inibindo a compreensão do princípio artístico.
A humanidade transferiu este legado ancestral inautêntico através da cultura, alterando-o indireta e inconscientemente, porém sua essência se manteve viva nos diversos encantamentos contemporâneos.
No texto "O desencantamento total do mundo", categorizei duas formas de encantamento que persistem na contemporaneidade: os encantamento gerados pelo conservadorismo histórico e os encantamentos gerados pela emergente comercialidade do ser. O primeiro se refere aos encantamentos dos grandes sistemas religiosos e das superstições que se conservam no decorrer da história. É nutrido pela fé religiosa e pela crença no sobrenatural ou além-mundo, sendo também encontrado em superstições, mitos e lendas. Esta categoria de encantamento é existencializada por bilhões de pessoas do mundo inteiro. Embora suas noções mágicas, anímicas e sobrenaturais sejam facilmente questionadas quando o assunto é materialidade, seus adeptos as concebem, em essência, mais como sentido existencial, mesmo não tendo consciência de tal fato. De um ponto de vista humanista, o perigo dessa forma de encantamento, fora a transferência do protagonismo existencial, consiste numa confusão extrema entre as três esferas categorizadas por Max Weber: Ética, Arte e Ciência. Os conhecimentos religiosos e supersticiosos tendem a misturar as diversas categorias da existência humana sobe uma única égide: a do encantamento. As categorias existenciais, filosoficamente compreendidas ao longo da história, não são dialeticamente compreendidas pela lógica encantada dos sistemas religiosos e superstições, pois existe nestes uma miscigenação encantada das categorias weberianas o que produz uma resistência filosófica.
O “encantamento gerado pela emergente comercialidade do ser” corresponde a ideologia capitalista-neoliberal que, apesar de ter como meta o material, utiliza de ideias encantadas para atingir seus fins exploratórios, promovendo a desumanização do ser humano e a supervalorização (encantada) do objeto (Fetichismo). Sujeito e objeto, se alternam conforme a lógica encantada do capitalismo.  Este encantamento faz parte da vida da maioria das pessoas do globo. É o propulsor de um individualismo antidialógico, que afasta o sujeito de uma existencialidade concreta no-mundo-com-os-outros. Este encantamento, historicamente fragmentado, é nutrido por fantasias mercantis que nunca se saciam, e tendem a gerar pessoas narcisistas frustradas, motivadas por pulsões auto-eróticas, encobrindo problemas globais como a fome, a miséria... em resumo: a total desumanização do ser. Este encantamento é, em minha opinião, a pior forma de encantamento já produzida pela humanidade.
Em ambas as categorias de encantamentos, a pulsão existencial é desviada de sua meta criativa-consciente, sendo inautêntica. Pois o criador está sempre idolatrando suas criações, projetando-se nelas inconscientemente, como se estas tivessem vida própria, independentemente de sua existência. Sejam os Deuses ou quaisquer ídolos, sejam as marcas e os slogam, são somente criações...
É preciso retomar a posição de criador, protagonista do processo existencial. E para isso somente a reflexão filosófica (abstração) e a intuição artística unidas, podem interconectar esse elo historicamente fragmentado, corrigindo o erro ancestral, devolvendo a nós, humanos, o que nos é de direito, mas que sempre, por motivos inconscientes, fizemos sempre questão de transferir: nossa CRIATIVIDADE!