quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Para uma Psicologia do Diálogo (Por Alvinan Magno)


            Este ensaio sintetiza os pontos essenciais de um encontro ocorrido no dia 24 de outubro de 2014 na faculdade Anhanguera de Anápolis. O tema era "Para uma psicologia do diálogo". Tema que, ao longo dos últimos anos, tem ocupado os meus estudos, reflexões, escritos, práticas psicoterápicas e inter-relacionais. Antes de iniciar a síntese sobre o encontro mencionado, gostaria de agradecer a algumas pessoas, e retratar um pouco da minha experiência.
            Gostaria de agradecer a Péricles Ferreira, filósofo, tatuador e escritor autodidata, que através de seus encontros filosóficos me apresentou uma nova maneira de experienciar as relações humanas. Nesses encontros, eu pude compreender que filosofia não é somente uma atividade individual, embora se inicie no pensamento do sujeito diante das dúvidas e questões existenciais. Pude compreender que a realização filosófica se efetiva na dialogicidade, no compartilhamento de ideias e sentimentos expressos, que se dão durante o encontro. Por meio destes encontros, eu "encontrava" uma nova maneira de me encontrar com os homens, descobrindo a importância do "nós" e da humanização dele oriunda. Assim, surgiu o meu interesse pelo estudo das relações humanas, do encontro...
            Agradeço a professora Janaína S. Oliveira, de quem tive a oportunidade de ser seu aluno. Com ela, pude aprender muito sobre relações humanas, dinâmicas de grupos, psicologia sócio-histórica entre outras. Suas aulas eram sempre um convite ao diálogo e a experiência grupal humanizadora, da qual era impossível não se emocionar. A professora Janaína, devo o meu profundo interesse pelas relações interpessoais.
            Gostaria de agradecer também a Luiz Eduardo Rosa Silva pela participação nos grupos de estudos e pela possibilidade de mediar alguns diálogos após a mostra de filmes no cine clube Xícara da Silva, atividade que faço com muito prazer, pois adoro a sétima arte, tanto do ponto de vista contemplativo, como criativo. Pude apreender muito com ele, e dialogar importantes questões sobre arte, filosofia, ciência política...  Não poderia de deixar de agradecer ao meu amigo e parceiro de composição, o músico César Franklin. Com ele, tive a oportunidade de realizar vários projetos artísticos, e descobrir que dialogar é um ato de amizade.
            Daí por diante tive a oportunidade de participar como mediador de vários encontros, psicoterápicos, de estudos, ou ambos. Afinal, quando o encontro atinge um elevado nível de reciprocidade, no qual os membros se sentem aceitos mutuamente, tal como constatou Rogers, é inevitável não haver um processo psicoterapêutico. O senhor Raimundo, um integrante de um destes grupos de seus 55 anos, sempre me falava após o grupo algo neste sentido: "Alvinan, eu sempre saio dos grupos renovado, é um experiência muito boa, eu me sinto livre pra falar o que penso, pra dizer o que sinto". E isto, estudando um texto "Mal estar na civilização" de Freud. Mas, pensem bem, caros leitores, qual a utilidade de um estudo que não ultrapassa o campo da teoria, se tornando vivencial? Como falar do mal estar na civilização, se não consigo me localizar neste tema, se ele me é indiferente?
            Antes do referido encontro, eu havia me lançado numa intensa e angustiante reflexão: Seria a psicologia, ciência que ao longo da história serviu as instituições, produzindo discursos para sua legitimação, capaz de libertar o homem do seu legado ideológico? Seria esta ciência que sempre se acoplou as demanda do capitalismo, as demandas de um individuo isolado, capaz de inter-conectar "humanamente" os homens? Existe, realmente a possibilidade, da psicologia ser uma precursora "legítima" do desenvolvimento humano dos homens? Estas e demais questões me fizeram formular alguns caminhos para trilhar, caminhos que não poderia formular só sozinho, pois, afinal, não iria trilhá-los sozinho.
            Compreendendo esta máxima, cheguei a conclusão que deveria falar sobre diálogo no e pelo diálogo, ou seja, o tema "diálogo" só poderia ser autenticamente compreendido se vivenciado em uma relação onde a dialogicidade estivesse presente. Não poderia fazer um discurso sobre diálogo, seria uma contradição evidente, já que considero o discurso como o principal oponente do diálogo. Foucault para falar de discurso, em sua "A ordem do discurso", recorreu ao discurso, enquanto meio de transmissão da sua temática, justificando-o dentro de teoria. Eu, seguindo essa lógica, mas questionando a instrumentalização do discurso, propus para os envolvidos do encontro uma experiência dialógica, que diferente de uma palestra discursiva, tem o conteúdo como um mero elemento facilitador, se centrando na relação. O que importa numa relação dialógica é a participação ativa e compartilhada dos envolvidos no encontro que, muitas das vezes, pode definir e intervir na temática, transformando radicalmente os pontos de vista. Nesse sentido, o "palestrante" se torna um mediador ou facilitador cuja tarefa é organizar consensualmente a atividade dialógica, direcionando esta através dos seus temas geradores.
            Tendo a relação dialógica como referência, eu trouxe as seguintes questões para dialogar com grupo: Mas, afinal, o que é diálogo? Qual a diferença entre discurso e diálogo? Qual a relação entre diálogo e psicologia? Estas questões foram apresentadas uma após a outra, depois de um compartilhamento entre ambas. Como era de se esperar de uma relação dialógica, todos os envolvidos deram a sua opinião, contribuindo pra o desvelar  das questões. Assim, foi possível a nós formular nossas próprias respostas, algumas muito próximas do pensamento do filósofo do diálogo Martin Buber e do pedagogo e teórico brasileiro Paulo Freire, que eu havia usado como referências. As respostas eram próximas a estes autores, pois iam numa mesma linha de pensamento, mas nunca iguais, pois o que dialogávamos naquele encontro era uma presentificação do nosso momento histórico-social que se realizava graças a interação criativa das nossas subjetividades, que produzia uma nova significação. Em resumo, estávamos ali produzindo nossas próprias concepções sobre diálogo e sua relação com a psicologia.
           Nesse sentido, caros leitores, chegamos a algumas proposições consensuais, respondendo a primeira questão. Tentarei transmiti-las a vocês, respeitando  e traduzindo a vivência do encontro.

  • ·         Diálogo é uma relação entre dois seres, que se faz entre um Eu e um Tu.
  • ·         Trata-se de uma relação empática, cuja a realização se dá por meio de trocas recíprocas.
  • ·         Representa a possibilidade de uma real comunicação por meio da aceitação do outro, e com esta a aceitação de si mesmo.
  • ·         Acontece na interface de um encontro: sua possibilidade ontológica se dá pelo encontro das extremidades, sendo inter-subjetivo.
  • ·         É uma coexistência, ativa, criativa e compartilhada, onde os evolvidos, tendo o homem e o mundo circundante como referência, se beneficiam mutuamente, através de relação consensual. 
  • ·          Deve ser des-sexualizado, ou seja, desprovido de interesses sexuais, de um ponto de vista psicanalítico.
  • ·         Para haver a dialogicidade, é necessário que se fale de uma relação entre sujeito, nunca  entre "objetos". No diálogo o sujeito está para um sujeito, e não para objetos. 
  • ·         Embora se possa falar de diálogo no plano do homem com a natureza (animais, plantas) e do homem com os seres espirituais - tal como coloca Buber - é somente no encontro humano que se realiza a autêntica ação dialógica. Nela, o homem recebe e endereça seu TU.

            Por meio de uma comunicação compartilhada, encontramos uma nova significação para esta simples palavra (diálogo), que se objetivou naquele encontro por meio da nossa volição, engajada neste tema. Cada individuo, ali presente, possuía uma historicidade subjetiva que se integrou com as dos demais, numa historização coletiva compartilhada. Assim, pode-se dizer que nossas historicidades encontraram um elo dialógico e, ao menos naquele momento, puderam se realizar, mais do que uma simples aquisição intelectual, foi uma vivência empática humanizadora. Nesta atividade, nós atribuímos a nossa coexistência experiencial aos conceitos, termos e temas, que foram apenas meros instrumentos, ou como pensava Heidegger, utensílios. Utensílios usados, neste caso, para refletir e traduzir a nossa experiência dialógica...
            Se eu tivesse optado por uma prática discursiva (palestra, aula expositiva), jamais atingiria esse nível de reciprocidade, pois o que estaria sendo estimulado, na melhor das intenções, seriam conteúdos, e não uma vivência didática compartilhada.  E para que, vocês compreendam melhor esta crítica que estabeleci ao discurso ou a discursividade, creio que seja necessário passar para o próximo nível do encontro. Estabeleci um quadro apontando algumas diferenças entre dialogicidade e discursividade, e estas aumentaram após a experiência dialógica com o grupo.


Enfoques da Discursividade
Enfoques da Dialogicidade
Comunicação monológica
Comunicação dialógica
Transferência narcísica
Transferência empática
 Explora o EU-ISSO
Experiencia o EU-TU
Valorização do objeto: Fetichismo 
Valorização do ser humano: humanismo.
Relações embasadas em interesses sexuais: hedonismo.
Relações embasadas no sentimento de amor a humanidade: altruísmo.
O foco é o individuo
O foco é a relação
Pressupõe  que o poder deve ser delegado a uma figura de autoridade
Pressupõe  que o poder pode ser compartilhado pela coletividade
Tendência a alienação e a dominação, entre o emissor e receptor
Tendência  a emancipação e libertação da coletividade humana
Concepção a-histórica da realidade baseada em um presente fragmentado  e contraditório(pós-modernidade).
Concepção histórica, baseada na possibilidade de integrar a realidade, superando as contradições sociais.
Produz condições para a competição.
Produz condições para a cooperação.

            

























            
            Passarei agora para uma análise mais detalhada deste quadro comparativo. Como é possível perceber no mesmo, existe uma enorme diferença entre os enfoques da discursividade e os da dialogicidade. Uma diferença profundamente antagônica a nível de tese e antítese. Enquanto que a primeira representa o espírito das relações inter-pessoais da nossa época neoliberal, a segunda representa uma possibilidade de ser, que só pode se tornar real como crítica da primeira. Trata-se de uma postura revolucionária.
            Na discursividade, a atividade se realiza tendo como padrão uma comunicação monológica que se resume em um emissor que transfere narcisticamente suas ideias e sentimentos, tendo em mente que seu (s) receptor (es) os acate (m) de maneira a-dialógica e a-dialética. Ele, no ato do discurso, se faz uma autoridade, cujo poder lhe foi delegado por um sistema, e cuja intenção é transmitir uma mensagem prontificada, estabelecendo, assim, relações de dominação, manipulação e alienação. Os sujeitos receptores são postos como Eu-Isso, meros objetos, no qual o discursante realiza seu fetiche Oral. A discursividade ou atividade do discurso é, como pudemos vivenciar, a forma de comunicação (talvez nem poderia ser chamada de comunicação) mais abrangente e recorrente do mundo contemporâneo. Pode-se dizer que sua existência, enquanto atividade humana, representa e traduz a via expressiva das contradições humanas da contemporaneidade, conservadas pelo sistema capitalista. 
           Ao contrário, na dialogicidade, a atividade se realiza numa comunicação entre um Eu e um Tu no seio de uma relação dual engajada, cuja aceitação do outro é sua condição de existência. Nela, a transferência ocorre em um nível empático, pois os envolvidos sentem uns aos outros, não como objetos de suas próprias projeções narcísicas, mas como sujeitos humanos que necessitam uns dos outros, para se realizarem como tal. Na dialogicidade, a atividade comunicativa é nutrida pelo sentimento de amor, mas não se trata aqui de um amor libidinal, narcísico-sexual, como supõe a psicanálise. Trata-se de um amor humanista, amor a humanidade, e para não distanciarmos totalmente do conhecimento psicanalítico: trata-se de uma "sublimação". Ou seja: uma canalização e/ou superação dos impulsos narcísico-sexuais na relação inter-pessoal pela consideração existencial do outro enquanto pessoa humana.  O sentimento de amor a humanidade é a condição prévia para a empatia...
         Embora existam inúmeras diferenças e relações entre discurso e diálogo, das quais esse encontro foi capaz de apontar algumas, creio que estes, devido a sua vastidão, sejam  para um próximo encontro. Falta relatar a vocês, caros leitores, a última parte do presente encontro. Depois do compartilhamento das diferenças entre diálogo e discurso, eu trouxe a terceira questão, almejando traçar uma relação entre psicologia e diálogo: Dentro de tudo isso que foi aqui discutido, a psicologia, no decorrer de sua curta história, tem se reportado mais a discursividade ou a dialogicidade?  Ela tem buscado dialogar com os homens, ou tem se afastado deste compromisso humano?
            E a reposta por parte de todos os envolvidos foi: a discursividade... Não, a psicologia tem se afastado deste compromisso humano. Concordamos que, ao longo de sua existência, a psicologia têm se acoplado as demandas do capitalismo e do neo-liberalismo, se fechando ora numa psicologia individual patologizante que responsabiliza o sujeito por sua condição, ora numa psicologia coletiva (das massas), discursiva e alienante que busca resolver os problemas sociais pela adaptação comportamental  as contingências dominantes; Ambas as psicologias, desconsideram a história e os fatores sociais, e com isso, evidentemente, negam a dialogicidade e a possibilidade da participação democrática dos homens na construção do conhecimento psíquico. Ao longo dos anos, a psicologia tem sido usada como uma ferramenta discursiva para alienar os homens, isto é, para modelá-los de acordo com as fôrmas do neoliberalismo. Longe de libertá-los, ela tem estimulados a produção de uma discursividade prescritiva que estimula a objetificação das relações, a individualização do sujeito, fragmentando-o de si mesmo, dos outros e do mundo concreto.
            E como seria então esta tal psicologia do diálogo que estamos aqui defendendo, quais seriam suas características? Bem, seriam totalmente inversas ao da psicologia do discurso que, possivelmente, se desenvolve na"pós-modernidade". A psicologia do diálogo só pode se reconhecer como crítica da psicologia do discurso. É pela crítica que ela encontra a sua razão de existência, podendo se legitimar autenticamente enquanto prática humanista. Somente assumindo os enfoques da dialogicidade que a psicologia pode se libertar da discursividade, característica central do mundo "pós-moderno". E quais seriam as condições prévias para implementação desta tal psicologia a nível prático? Formulei antes e a após o encontro, algumas proposições que acredito serem necessárias para que essa psicologia seja possível. Estas proposições, são, antes de tudo, proposições éticas. Para que haja uma psicologia do diálogo é necessário:

     Amor e compromisso a humanidade (humanismo), acima de tudo.
     Humildade para aceitação do outro.
    Respeito as diferenças individuais e culturais.
   Capacidade para uma escuta empática e dialógica.
   Disposição para o engajamento humano em projetos coletivos.
  Coragem para se opor ao individualismo discursivo anti-dialógico, próprio do sistema capitalista neoliberal.

            Acho que, em síntese, é isso, caros leitores. Espero que tenha conseguido transmitir a síntese deste encontro que pra mim foi tão rico e importante. A partir dele, pude ampliar minhas noções e pensar, por meio da prática dialógica, numa psicologia que pode ser a esperança para os nossos tempos. Uma psicologia que adentrasse nos principais problemas do ser humano contemporâneo, que aqui coloco como problemas de natureza a-dialógica e anti-dialógica. Posso estar sendo utópico, mas eu realmente acredito que estas ideias e estes sentimentos presentes nestes textos, possam ser mais do que meras expressões. Acredito que estas ideias, estes sentimentos, são ensaios que podem se cumprir renovadamente em continuas ações. Necessitam ser aperfeiçoados a luz de uma epistemologia crítica e de uma ontologia criativa. Mas isso só poderá acontecer com a experiência dialógica, propriamente dita, que aqui descrevi um pequeno, porém, significativo fragmento.
   

REFERÊNCIAS

BUBER, Martin. Eu e Tu. 10 ed.  São Paulo: Cenaturo, 137 p. 2001.

BUBER, Martin.  Do diálogo e do dialógico. São Paulo. Perspectiva, 2009.

CATÃO, Alvinan. Psicanálise, Fenomenologia e Existencialismo – um possível diálogo na construção de uma nova abordagem. Goiânia, Kelps, 2014.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo, 20a ed Edições Loyola, 2010.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de janeiro, 54 ed., paz e terra, 2013.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 21). 1996.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Pulsão existencial e sua meta criativa (por Alvinan Magno)

Ao longo de minhas investigações filosóficas1, tenho sustentado que o “encantamento” artístico, produzido pelo princípio Ápeiron, tem perpetuado historicamente os paradigmas, as injurias, os mitos e os erros históricos, enfraquecendo a reflexão filosófica e o seu movimento dialético sobre o mundo concreto, resultando num evidente atraso no desenvolvimento humano da humanidade. Esse encantamento, oriundo de uma contradição entre criador e criatura, foi o responsável pela aceitação e pela transmissão cultural das superstições, das significações mágicas e das ideologias (ideias encantadas pelo capitalismo) ao longo da história. Levantei a hipótese de que este encantamento tenha surgido com a transição evolutiva do homem primitivo pré-histórico - que era inconsciente de sua existência e dependente dos estímulos ambientais - para o homem histórico – que já possuía uma consciência intuitiva, ou seja, era um ser existencial. Nos ensaios anteriores, criei alguns conceitos na tentativa de desenvolver posturas ético-filosóficas para a superação filosófica desta problemática.
Sou levado a colocar que a representação encantada (encantamento) surgiu da distorção senso-perceptiva dos primeiros seres humanos intuitivos, diante de fenômenos desconhecidos a aquela consciência intuitiva. Com a evolução biológica dos seres humanos, houve a conversão do medo instintivo em angustia existencial. Esta, juntamente com as inúmeras capacidades criativas daquela consciência, fizeram com que os primeiros seres humanos (Sapiens) criassem significados mágicos para tampar as lacunas do vazio existencial, este que foi efeito da percepção consciente dos mesmos sobre a sua situação mortal. Anteriormente a morte encontrava se única e exclusivamente ligada ao instinto de sobrevivência que se fazia mecânico em sintonia com os estímulos do meio ambiente. O instinto de sobrevivência, nesta ordem evolutiva, também se transforma, adquirindo uma forma existencial. Chamarei aqui de pulsão existencial, a transposição conversiva do instinto de sobrevivência para uma força existencial-criativa. Esta pulsão estava destinada para um único fim: a saciação das necessidades existenciais, por meio da produção criativa de significados para, então, emergente existência. Se a fome representa um sinal de alerta do corpo que mobiliza o organismo ao ato de comer, a angustia (pulsão existencial) representa o sinal de alerta da existência que a mobiliza ao ato de criar um sentido; sentido para tamponar o nada.
Os primeiros sentidos (significados) foram criados graças a percepção intuitiva dos primeiros homens. Estes sentidos, como já foi dito, se situavam sempre no mundo externo, não havendo espaço para a compreensão da participação subjetiva-protagonizante dos seres que estavam existencializando o processo. Os homens intuitivos não eram capazes de abstrair a realidade tal como esta, de fato, era, ou seja, de maneira lógica ou racional. Talvez o termo "distorção senso-perceptiva" seja um tanto pesado para representar este fenômeno, pois aqueles homens estavam tendo as suas primeiras experiências existenciais, constituindo, ao longo destas, suas memórias e historicidades. O fato é que, em tais condições, mesmo que sejam considerados errôneos em nossa concepção lógica contemporânea, tais sentidos foram formas de compreender e significar a existência com base nesta estrutura cognitiva ancestral. Nesse sentido, um raio que caísse do céu poderia facilmente ser interpretado como uma manifestação mágica, poderosa, que escapava aos domínios da consciência. Um imaginário criativo, angustiado pela pulsão existencial, poderia interpretar um meteorito que caiu do céu, como um Deus, ou obra do mesmo, só necessitaria de condições propicias e específicas.
A pulsão existencial ancestral ainda possuía vínculos com o instinto, no sentido de atingir a sua meta, não se preocupando com a realidade das coisas. É provável que o aparecimento existencial, juntamente com a sua finitude (mortalidade), tenha gerado no homem um de seus maiores traumas, o que, na história das culturas, nunca foi aceito. Por meio deste trauma, o homem se descobriu um ser impotente, fraco, pequeno, e como resposta a isto o organismo, já então existente, pulsionalmente motivado, buscou tamponar esta realidade cruel criando, assim os “significados criadores”.
A emergência angustiante, produzida pela pulsão existencial, fez com que os homens primitivos criassem seus primeiros sistemas totêmico-religiosos que eram sempre representados em suas pinturas rupestres, esculturas e outros itens adornados. Como se percebe, a arte, ou seja o processo artístico-criativo estava ali desde o começo, sendo o “principio” desta contradição entre criatura e criador. Chamei de princípio Ápeiron, ou princípio artístico, a lógica que possivelmente tenha produzido esta contradição. Embora este processo de produção de sentido tenha ocorrido graças a criatividade artística do homem, tal processo não foi percebido por ele, sendo cristalizado na memória cultural, perpassado a seus descendentes por meio da linguagem. Desde então, a criação, as obras de arte, cujo simbólico superou sua materialidade, adquiriram função de criadoras, perpetuando na história, e colocando os homens como espectadores de sua própria criação, inibindo a compreensão do princípio artístico.
A humanidade transferiu este legado ancestral inautêntico através da cultura, alterando-o indireta e inconscientemente, porém sua essência se manteve viva nos diversos encantamentos contemporâneos.
No texto "O desencantamento total do mundo", categorizei duas formas de encantamento que persistem na contemporaneidade: os encantamento gerados pelo conservadorismo histórico e os encantamentos gerados pela emergente comercialidade do ser. O primeiro se refere aos encantamentos dos grandes sistemas religiosos e das superstições que se conservam no decorrer da história. É nutrido pela fé religiosa e pela crença no sobrenatural ou além-mundo, sendo também encontrado em superstições, mitos e lendas. Esta categoria de encantamento é existencializada por bilhões de pessoas do mundo inteiro. Embora suas noções mágicas, anímicas e sobrenaturais sejam facilmente questionadas quando o assunto é materialidade, seus adeptos as concebem, em essência, mais como sentido existencial, mesmo não tendo consciência de tal fato. De um ponto de vista humanista, o perigo dessa forma de encantamento, fora a transferência do protagonismo existencial, consiste numa confusão extrema entre as três esferas categorizadas por Max Weber: Ética, Arte e Ciência. Os conhecimentos religiosos e supersticiosos tendem a misturar as diversas categorias da existência humana sobe uma única égide: a do encantamento. As categorias existenciais, filosoficamente compreendidas ao longo da história, não são dialeticamente compreendidas pela lógica encantada dos sistemas religiosos e superstições, pois existe nestes uma miscigenação encantada das categorias weberianas o que produz uma resistência filosófica.
O “encantamento gerado pela emergente comercialidade do ser” corresponde a ideologia capitalista-neoliberal que, apesar de ter como meta o material, utiliza de ideias encantadas para atingir seus fins exploratórios, promovendo a desumanização do ser humano e a supervalorização (encantada) do objeto (Fetichismo). Sujeito e objeto, se alternam conforme a lógica encantada do capitalismo.  Este encantamento faz parte da vida da maioria das pessoas do globo. É o propulsor de um individualismo antidialógico, que afasta o sujeito de uma existencialidade concreta no-mundo-com-os-outros. Este encantamento, historicamente fragmentado, é nutrido por fantasias mercantis que nunca se saciam, e tendem a gerar pessoas narcisistas frustradas, motivadas por pulsões auto-eróticas, encobrindo problemas globais como a fome, a miséria... em resumo: a total desumanização do ser. Este encantamento é, em minha opinião, a pior forma de encantamento já produzida pela humanidade.
Em ambas as categorias de encantamentos, a pulsão existencial é desviada de sua meta criativa-consciente, sendo inautêntica. Pois o criador está sempre idolatrando suas criações, projetando-se nelas inconscientemente, como se estas tivessem vida própria, independentemente de sua existência. Sejam os Deuses ou quaisquer ídolos, sejam as marcas e os slogam, são somente criações...
É preciso retomar a posição de criador, protagonista do processo existencial. E para isso somente a reflexão filosófica (abstração) e a intuição artística unidas, podem interconectar esse elo historicamente fragmentado, corrigindo o erro ancestral, devolvendo a nós, humanos, o que nos é de direito, mas que sempre, por motivos inconscientes, fizemos sempre questão de transferir: nossa CRIATIVIDADE!

domingo, 10 de agosto de 2014

Uma canção para meu pai


Obrigado por dizer aquele “não”
Que me inseriu na civilização
Que me mostrou o seu mundo
No que é raso no que é profundo

Sou profundamente grato
Por me emprestar o seu caráter
Por me doar seu coração
Por me ensinar a combater
Por ter firmeza de decisão

Pai, tu me ensinaste a superar
As fraquezas da existência
O seu “norte” sempre vai estar
Guiando minha experiência

Sou eternamente grato
Por ter me dado um “Existir”
Por ter sido minha identidade
Por me ensinar a resistir
Por me mostrar a realidade

Pai, tu sempre estarás em mim
Carregarei a tua influência
Para bem longe, sempre assim
Afirmando sua bela essência

Letra e melodia: Alvinan Magno

terça-feira, 8 de julho de 2014

A copa foi-se embora!


A copa foi-se embora
Mas ficaram as despesas
Que iremos pagar agora
A nossa pátria, a realeza!

Despesas de um povo sofredor
Que ainda continua a ser explorado
Sem consideração, empatia ou amor
Seus sentimentos são condicionados

E até quando seremos submetidos?
Acreditando nessa infeliz ilusão?
Até quando seremos convencidos?
 Que a bola vale mais que a educação?

Enquanto acreditarmos nesse discurso
E nos rendermos aos seus encantos
Estaremos seguindo o mesmo curso
De um hino que perdeu o seu canto

 Apreciado em campo tão-somente
 Em “verde” e “ amarelo” incongruente
Sem nenhuma possível relação
Com a sociedade, a práxis, a nação!

Uma doce ilusão foi assim acreditar
Que poderíamos um dia chegar a ganhar
Esquecendo da nossa pobre situação:
Desigualdade, violência e corrupção

Insensatez foi nos deixarmos levar
Por uma ideologia, a nos conquistar
Por algo demasiadamente irracional
Inconsciente, hipnótico, superficial

   A copa foi-se embora
Mas nos deixou o seu parecer
Para fazermos agora
Sem esperar acontecer

Alvinan Magno


* Esta Poesia é uma extensão atualizada referente a poesia "Foi-se a copa" da obra Poesia e Prosa de Carlos Drumond de Andrade. 


quinta-feira, 3 de julho de 2014

A IMPORTÂNCIA DE SE ESTUDAR HISTÓRIA

                                                Entre as penas humanas, a mais dolorosa é a de prever muitas coisas e não poder fazer nada. Heródoto

           A história representa o estudo das ações do homem no tempo, que transformam a natureza originária, produzindo, assim, o mundo humano. Trata-se de uma disciplina que busca apreender através dos registros memoriais, as causas, as relações e os significados das vivências passadas, no intuito de compreender o presente, e assim, por meio da consciência, modificar o futuro. Para Diehl (2006), citado por Suassuna (2008), a história além de ser um bem cultural inestimável, com valores implícitos e explícitos, representa uma comunicação entre esses três tempos, tendo os sentidos como fio condutor. É por meio dessa comunicação que se é possível compreender os eventos passados, avalia-los, transformando-os em valores que serão integrados ao presente, alterando o futuro e sua ordem natural.
Nesse sentido, tal como coloca Suassuna (2008), estudar história significa compreender fatos e experiências inseridos em um fluxo temporal, no qual passado, presente e futuro estão interconectados. É justamente essa capacidade de interconectar os três tempos de maneira consciente que diferencia a espécie humana dos demais animais. Essa capacidade proporciona aos humanos a possibilidade de superar sua condição orgânica biológica, chegando assim as “situações-limites” e aos “atos limites”, que segundo Freire (2013) não se encontram nos animais. Sobre isso, escreveu o autor:

Não sendo o animal um “ser para si”, lhe falta o poder de exercer “atos limites” que implicam uma postura decisória frente ao mundo, do qual o ser se “separa”, e, objetivando-o, o transforma com sua ação. Preso organicamente a seu suporte, não se distingue dele. [...] A diferença entre os dois, entre o animal, de cuja atividade, porque não constitui “atos-limites” não resulta uma produção mais além de si, e os homens que, através de sua ação sobre o mundo, criam o domínio da cultura e da história, está em que somente estes são seres da práxis (FREIRE, 2013, p. 126-127).

            A partir desta afirmação, pode se dizer que a história, juntamente com a consciência, a condição que a produz, faz do homem um “ser para si”, visto que ela é uma das principais características que o diferencia dos outros animais e demais seres vivos. O homem possui a capacidade consciente de registrar suas memórias e de transmiti-la através da cultura. O homem da idade antiga será diferente, em termos históricos, do homem da idade média, e este ao dá idade moderna, o que possivelmente não acontecerá com os animais de ambas as épocas. Sendo um ser histórico, o homem aprende e conserva seu aprendizado por meio das memórias, transformando-o no decorrer das épocas.  
            O estudo da história proporciona ao homem uma postura diferenciada em relação ao passado, já que este estudo não se faz somente reproduzindo o mesmo de maneira puramente descritiva, mas se faz de maneira ativa, crítica e avaliativa, pois a história é construída por sujeitos que são, ao mesmo tempo, os autores e os produtos de um continuo processo histórico. Assim como coloca Wertheimer (1989, p. 5), a história trata de acontecimentos cujo respeito não se pode estar seguro e cuja seleção para consideração é assunto idiossincrático e subjetivo, nunca sendo imparcial. Sendo desenvolvida a partir da experiência subjetiva, ela sempre terá traços das vivências de quem a criou, por mais objetiva que pretenda ser. Nesse sentido, pode-se afirmar que:

(...) a história não é independente do historiador. Ela não é algo preestabelecido. A que evento dar ênfase, qual deles incluir ou excluir, como interpretar o que foi escolhido – tudo isso depende do ponto de vista do historiador (WERTHEIMER, 1989, p.5).

            A partir dessa consideração, pode dizer que o historiador através, da seleção e da ênfase dos fatos estudados assim como a forma que este percebe os mesmos, remonta um significado particular, integrando assim o seu conjunto de valores que são subjetivos. Ampliando esta reflexão, pode-se dizer que a história (conhecimento histórico) é produzida pela interação entre a subjetividade do historiador e a objetividade factual, ou seja, os acontecimentos históricos. Não há fatos sem sujeito, da mesma forma que não existem sujeitos sem história. Em uma compreensão ontológica, pode-se afirmar que os fatos existem em função dos sujeitos, à medida que estes lhe agregam valor. Um fato que acontece fora da percepção humana, não possuirá valor, e tampouco existência. Nesse sentido, a história representa um agregado de valores que buscam configurar sobre como um homem ou uma sociedade viveu e existiu.
            Estudar história significa compreender a essência da humanidade que se faz em um continuo processo de historização, que não se esgota, pois o ser humano sempre estará produzindo passado à medida que existe no-mundo-com-os-outros. E decifrar esse passado sempre será uma tarefa do homem do presente que buscará atualizar sua historicidade através desta atividade, criando assim condições para  atitudes que, superem o passado, e possam criar um presente autêntico.

REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 54 ed. rev. e atual – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

SUASSUNA, Danilo e HOLANDA, Adriano. História da Gestalt-terapia no Brasil: um estudo historiográfico. Curitiba: Juruá, 2008.

WERTHEIMER, MICHAEL. Pequena história da psicologia. Tradução Lólito Lourenço de Oliveira. – 8 ed. – São Paulo : Editora Nacional, iniciação científica; v. 34, 1989.
            

sábado, 7 de junho de 2014

ÁPEIRON: O PRINCÍPIO ARTÍSTICO® (por Alvinan Magno)


Temos a arte para não morrermos da verdade (Friedrich Nietzsche).

Em minha jornada filosófica, venho refletindo e esboçando conceitos na tentativa de compreender as gêneses e o desenvolvimento do processo histórico-existencial do ser humano, para a criação de posturas ético-filosóficas autênticas que busquem superar os principais problemas da contemporaneidade. Em textos anteriores1, a partir de uma compreensão crítica da história, nomeei dois conceitos principais que representam tais posturas: o desencantamento total do mundo e o reencantamento do mundo pela arte. Nesse ensaio, conceituarei sobre o princípio artístico ou tal como ousei chamar de: Ápeiron. O descortinar pleno deste conceito trará mais argumentos para o entendimento das posturas ético-filosóficas mencionadas.
 Ápeiron é uma palavra de origem grega (ἄπειρον) que significa ilimitado, infinito e indefinido. O termo é central na teoria cosmológica de Anaximandro de Mileto, representando o quinto elemento, responsável pela criação dos demais, agua, ar, fogo e terra, estes que, para os antigos filósofos cosmológicos, eram essências que compunham o universo. Para Anaximandro, Ápeiron representa o eterno, o imutável, que teria gerado os opostos quente e frio, seco e molhado que atuaram na criação do mundo. Nesse sentido, este elemento seria responsável pelo ato da criação, o impulso compositor dos diversos mundos que, conforme a necessidade, estavam em constante processo de destruição e criação.2
Tirando o Ápeiron de seu significado cosmológico, e inserindo-o em um repertório de significado histórico-existencial, pode-se dizer que ele é o elemento criador dos diversos significados místico, estético, existencial e essencial do ser humano, que aqui chamar-se-á de “sentidos”. Porém diferente do que pensam os filósofos do cosmo, o Ápeiron ou princípio artístico será compreendido aqui como: a relação ontológica e dialética entre o mundo interno (subjetividade) e o mundo externo (objetividade), responsável pela criação do “sentido”, deixando a representatividade correspondente a uma entidade causal externa de lado, por ora. Pode-se dizer que tal princípio surge com o aparecimento existencial do homem, o que acontece em um período da pré-história quando, por motivos adaptativos, os hominídeos que obedeciam instintivamente sua natureza interna inconsciente sob as condições da natureza externa, começam a ter pequenos feixes de consciência. A partir desta, o hominídeo se torna existente, homem que sabe que sabe, e passa a ter uma história, já que esta consciência também registra suas experiências existenciais. Pode-se dizer que o homem, ao evoluir de seu estado animalesco-instintivo para um estado existencial-consciente inicia sua história, e com esta uma serie de contradições que - como foi abordado no texto anterior– são responsáveis pela conservação de paradigmas históricos que se cristalizaram na cultura. Chamou-se estas de contradição criatura-criador.
Esta contradição surge da necessidade urgente de significar o vazio existencial – que, como vimos, foi uma das primeiras reações do organismo humano diante do aparecimento da consciência, que inicialmente era intuitiva. Sobre essa consciência intuitiva ou intuição e sua urgência em significar o vazio existencial, vale citar um parágrafo do texto anterior:

A intuição não era capaz de perceber racional e reflexivamente o funcionamento da natureza, e teve de criar formas simples, porém organizadas, para acessar e compreender o mundo. A estas formas compreensivas que representam o conhecimento fantasioso, chamamos de “mito”. O mito representa a linguagem do pensamento intuitivo que se organiza no mundo por meio de arquétipos. Os arquétipos são criações intuitivas simbólicas externadas artisticamente na realidade mundana. Um exemplo de arquétipo no cenário pré-histórico são as pinturas rupestres,as estátuas esculturais e os vasos fúnebres; nestes exemplos, se é possível perceber a preocupação do homem das cavernas com essência do ser, que transcende a mera vivência instintiva da necessidade animal, descobrindo a necessidade existencial. Por meio da conceituação e dos exemplos, se é possível compreender toda engenhosidade da intuição que, para produzir sentido, se utiliza da imaginação, tampando as lacunas (vazio existencial) do que antes era desconhecido (CATÃO, A., 2013). 4

A urgência em significar sua recente situação existencial, fez com que os primeiros homens criassem intuitivamente sentidos a partir de suas primeiras percepções do mundo externo. Essas percepções por serem espontâneas não eram capazes de “abstrair” a realidade tal como esta, de fato, era, pois a consciência ainda não possuía historicidade, ou seja, experiências históricas que viriam a amadurecê-la, dando a esta uma qualidade racional (abstração). Não sendo capazes de entender o mundo racionalmente, os homens intuitivos tiveram de recorrer à imaginação para tapar as lacunas do desconhecido, criando “sentidos” para as suas existências. Estes, produzidos através de suas percepções intuitivas do mundo circundante juntamente com a interpretação de seus imaginários, se centravam sempre no mundo externo, não havendo espaço para a compreensão da participação subjetiva dos humanos que estavam experienciando o processo. Nesse sentido, houve o que chamei de “erro intuitivo”, responsável pela contradição criatura-criador que se manteve cristalizada na história do homem, nunca superada, sendo conservada nos grandes mitos religiosos, superstições, encantamentos de qualquer natureza e em algumas posturas filosóficas. Sobre a contradição criatura-criador, vale relembrar:

O criador, o ser homem, movido por angustias emergenciais, cria intuitivamente significados (criatura) que, não sendo percebidos integral e conscientemente (intuição), voltam para ele como sendo “significados criadores”, inibindo assim a compreensão do princípio artístico. Os significados que na realidade são criaturas, assumem a função de criador, colocando o homem como um mero espectador de sua própria obra de arte, reforçando o encantamento, a submissão ao erro e o encobrimento do principio artístico. As criações culturais anímicas- tidas como fenômenos criadores- tem sua origem nesta contradição (CATÃO, A.,2013).4

            O ápeiron surge então como o primeiro princípio existencial do ser humano, iniciando a contradição entre criador e criador. O homem, criador, consciente de seu sentido, porém inconsciente da causalidade real que o produziu, projeta-se no mundo, afastando de si mesmo e inicia, já em tempos pré-históricos, o que Heidegger viria a chamar de inautenticidade5, uma criação cuja essência não foi plenamente revelada. Mas, por que essa inautenticidade se conservou até a contemporaneidade, mesmo com a consciência da história? A resposta para esta questão pode estar ligada a fatores instituais, inconscientes, individuais e coletivos que agiram como determinantes para a aceitação do erro intuitivo que nossos ancestrais criaram! Existe uma força determinante no homem, que influência suas ações e esta está ligada a natureza, que a própria história não foi capaz de superar. O que não pode ser negado, tais como fazem algumas posturas fenomenológicas, sociológicas e historicistas, desprezando os fenômenos “naturais”, quando referidos ao ser humano. Nesse sentido, é necessário compreender as teorias naturalistas de Darwin e Freud, de maneira a sintetizar seus pontos essenciais, não incorrendo em suas tendências teóricas reducionistas. Pois elas apresentam uma visão complexa da vida, tanto em seu horizonte psicológico como no horizonte evolutivo. Para compreender o processo histórico-existencial do homem, será necessário acrescentar a vida (instinto, pulsão), como fenômeno natural no quadro existencial e essencial do mesmo. Ter-se-á de colocar a vida (natureza), tão defendida por Nietzsche, na afirmação sartriana “A existência precede a essência”, completando a afirmação: A vida precede a existência que precede a essência. Somente nessa ordem se pode compreender o Ápeiron - o princípio oriundo da conversão da vida em existência e desta em essência – como princípio humano, demasiado humano. 
            É a partir de uma reflexão integradora das contradições criadas pela intuição humana, no árduo processo de evolução: vida - instinto – necessidade - existência – vazio existencial – criação – essência – sentido, que se pode diagnosticar e resolver os problemas filosóficos no plano de uma ontologia real prática. E para isso, nós humanos, devemos compreender e aceitar o Ápeiron como parte integrante da nossa potencialidade antropomórfica, para que possamos desenvolver posturas ético-filosóficas compatíveis com a realidade humana e sua situacionalidade atual. Precisamos desmistificar o encantamento criado pelo Ápeiron intuitivo ancestral que se conserva na atualidade, e assumir a abstração filosófica a fim de direcionar nossa criatividade para ações éticas conscientes e autênticas. Para que possamo-nos chegar a esse patamar será necessário recorrer ao desencantamento total do mundo, que por via do questionamento apontará os tabus, mitos, erros, encantamentos, ídolos e ideologias históricas, criadas inautenticamente pelo instinto e pela intuição humana, integrando a historicidade a favor da humanidade.
O desencantamento total do mundo nos levará novamente ao Ápeiron, porém, diferente dos homens das cavernas, nós retornaremos a ele com a consciência banhada pela experiência histórica, e poderemos corrigir o erro que determinou nossos modos de agir por milhares de anos. Tendo chegado a esse estado, teremos de recriar o mundo, reencantá-lo, pois os encantamentos históricos – mesmo sendo inautênticos – proporcionaram sentidos para a existência humana e com isso a sua perpetuação histórica, provando aos humanos que são um necessário existencial. E nesse momento, tendo consciência do principio artístico, Ápeiron, como princípio gerador da existência humana, poderemos significar a arte – o diálogo ontológico e empírico entre sujeito, os seus semelhantes e o mundo objetal – como a mais evidente forma de conceber a realidade (concordando em palavras com Shopenhauer). E assim poderemos alcançar o sentido de “reencantamento do mundo pela arte”, como uma postura ético-filosófica que integrará os opostos: subjetividade e objetividade, pensamento e vida, ser e nada, superando as dicotomias e auxiliando a nossa coexistência no-mundo-com-os-outros de maneira criativa e autêntica em um contínuo processo holístico.    

Referências bibliográficas:


2 - SPINELLI, Miguel. A noção de arché no contexto da Filosofia dos Pré-Socráticos. Hypnos. Revista do Centro de Estudos da Antiguidade. ISSN 2177-5346 8 (2002).

3 - CATÃO, Alvinan. O desencantamento total do mundo. Raízes da criatividade: filosofia, ciência e arte com autenticidade. Blogger (2012).

4 – CATÃO, Alvinan. O reencantamento do mundo pela arte: esbouço para uma teoria artística da existência. Raízes da criatividade: filosofia, ciência e arte com autenticidade. Blogger (2013).

5 - BRUNS, Maria Alves; TRINDADE, Ellica. Metodologia fenomenológica: a contribuição da ontologia-hermenêutica de Martin Heidegger.In: BRUMS, M. A. T.; HOLANDA, A. F. (orgs). Psicologia e Fenomenologia: reflexões e perspectivas. Campinas, SP: Alinea, p. 77-92 (2003).